sábado, 28 de maio de 2016

Ele é

Ele nunca falava sobre a morte, porque o que lhe interessava era a vida. Ele era atleta, teve um jornal, foi prefeito, conheceu a forma mais pura do amor, foi pai e foi avô. Ele abria a porta do carro, era gentil, o homem mais gentil que eu conheci. Ele comprava flores e lia poesia. Ele escrevia suas memórias em um caderno à próprio punho, relembrando suas estripulias, sua carreira política, a minha avó, a quem tantou amou e sua vida bem vivida, o que sempre lhe trazia lágrimas aos olhos. De saudade e felicidade, é claro. Ele era forte e saúdavel. Aos 96, nunca vi tão saudável. Ele brindava a vida em pequenas doses de scott com gelo ou de um tinto de qualquer tipo. Ele brindava a vida o tempo todo. Ele gostava dela e ela o abençoou profundamente. Ele me ensinou tanto sem sequer perceber, foi meu meu ídolo e eu sua fã devota e fiel. Ele era pura inspiração. Depois dos 90, ele aprendeu a mexer no computador, comeu sushi e leu o livro "Como conquistar uma mulher". Ele era fogo. Ele foi tão amado, meu Deus. Tão amado. Ele tinha fé em Deus, rezava antes de dormir e me escrevia bilhetes lindos. Na última vez que o vi, dei um beijo em sua testa e disse que o amava. Eu nunca perdi uma chance de dizer isso à ele. Nenhuma. Ele era o cliente mais amado na fila do supermercado e o maior apostador da Mega-Sena. Ele não gostava de ficar em casa. Ele gostava de rua, de gente, de amor, de vida. Ele era tão sábio e tão humano. Ele era demais. Na verdade, ele não era. Ele É. É e continuará sendo. E eu? Eu vou chorar um bocado, vou guardar cada memória e lembrar de casa abraço. Eu vou amar como ele sempre amou, respeitar o próximo como ele me ensinou. Eu vou continuar me inspirando nele todos os dias em que eu viver. Eu espero ser amiga da vida como ele foi e ver o mundo com a beleza que ele viu, sempre que abria aqueles lindos olhos azuis, que me olhavam e sorriam.