segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Só tu

E foi quando eu achava
Que não acharia ninguém
Que você veio

E foi quando eu não cria
Em mais nada
Que o céu se fez azul

E foi quando não vinha sequer uma alma
Eu olhava nas ruas e não via nada
Subindo a ladeira, estavas tu

E você vinha tão bela
Eu te olhava e dizia:
- Será que é ela?

Você subiu a ladeira, chegou e ficou bem perto
Te dei um beijo no rosto
Virei uma chama inteira

Depois disso, qualquer mal que em minh’alma estava, sumiu
Só tu fizeste festa
Só tu reuniste tudo que de melhor em mim existe ou existiu

Só tu tens o convite do baile
Só tu o cheiro da flor
Só tu em meu peito, bate
Só tu tens meu bem, meu amor

sábado, 8 de outubro de 2011

O cantador



Ele escrevia as cantigas
E orgulhoso cantava
Pelas estradas por onde ia

Nas terras em que andava
O homem só reclamava
Do peito que lhe doía

A dor se chamava Sofia
Uma negra tão preta
Que sua pele reluzia

Em povoado algum
Depois dela, ele fez moradia
Sofria, o tal homem, sofria

Ele chegava aos lugares de dia
E à noite quando a poeira baixava
Ele partia

Só Sofia em sua vida vivia
Só por Sofia, sofria
Sofria e por não saber onde ir, ele apenas ia

Fazia canções e cantava
Fazia refrões e rimava
Fazia odes à mulher que amava

Para aquele cantador, há muito o dia não amanhecia
A falta que sentia era tão grande
Que seu coração amargura rangia, rangia...

Uma coisa que ele queria ter feito
Era levar a negra ao baile
Mas antes, a morte armou seu desfecho

Sofia, de longe, espera que ele
Seja ainda feliz em vida
Ele, porém, duvida

quinta-feira, 7 de julho de 2011

No arvorecer dos olhos teus




No arvorecer do olhos teus,

os delírios e vícios são meus.



No amanhecer dos braços teus,

os sorrisos e sussurros são meus e teus.



Nas alvoradas de tantos dias,

no alvoroço de abraços loucos.



Da doce vida que vamos levando

à eterna vida que imaginamos.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Profundeza branca

Pele de nuvem
Cheiro de pêssego
Gelado fogo
Num chão de desejo

Cândidos laços
Mágicos beijos
Tato e olfato
Afeto sem medo

Alva brandura
Vida que muda
Ternura profunda
Beleza que cura

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Haicai



Eu vou escrever um livro
Que fale unicamente de dor
Depois, rasgarei as folhas
E viverei só de amor

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Moça dos olhos d'agua



Moça, me dá teus olhos
Que eu quero neles nadar
Moça dos olhos d'água
Tu incendiaste o meu mar

Revira e volta pra mim
Nas alegrias do meu sonhar
Sua cor impregnou
No corpo, na alma, no ar

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O MUNDO ESTÁ LOUCO (ou sou eu quem estou?)



Donas de casa enfeitam suas salas com lírios de plástico e esquecem de aguar as margaridas no jardim, amizades são tão descartáveis como copos, que são jogados no lixo depois da festa. Amores, que outrora eram eternos são deixados escorrer pelo ralo ou fritar, junto ao bife, numa panela quente. Cartas de amor e poemas são amassados e jogados num cesto com papéis sujos de merda.

Filhos matam seus pais por dinheiro, pais matam seus filhos por ciúmes, mulheres enganam seus maridos e usam botas longas e saias curtas na calada da noite. Um jogo de futebol já não é mais um divertimento saudável, mães nutricionistas entopem os filhos de fast food, homossexuais são esquartejados porque escolheram ser felizes.

Um negro é barrado na porta da boate enquanto a loira gostosa recebe um Mojito de graça. Os valores se distorceram, como os professores se distorcem para ganhar o suficiente pra sustentar seus filhos. Bom mesmo é ser mau caráter. Mais vale um bandido rico do que trabalhador pobre. Mais vale dinheiro no bolso do que decência. Mais vale ter do que ser. Mais vale ser ouvido do que ouvir. Mais vale julgar do que saber. Mais vale matar do que morrer.

Jovens que têm inúmeros caminhos belos a escolher, optam pelos mais perigosos. Pais de família, na busca desenfreada pelo poder, atropelam quem vem pela frente. Filhos se envergonham do pai presidiário porque sonhavam em ter um pai herói. Esses mesmos filhos, decepcionados, acabam virando a decepção dos seus filhos. Em seus quartos, as pessoas já não choram as dores dos outros. Os que muito tem, não dividem. Os amigos já não se ajudam, as tristezas alheias já não comovem.

Crianças são jogadas de janelas, ofensas são bradadas à luz do dia, obras de arte são roubadas de seus criadores, animais viram casaco de mulher rica, cachorros são chutados porque latiram, testemunhas são mortas porque falaram. As pessoas não agradecem um favor, as igrejas estão cheias de mercenários do louvor. O mundo tá muito louco. Ou sou eu quem tô?

terça-feira, 12 de abril de 2011

Diga a ela



Se por acaso encontrares ela
Diga que ela foi a mais querida
De todas que me passaram em vida
Diga que ela foi a mais bonita

Se a vires sem querer
Em qualquer lugar
Diga que mesmo a custo de qualquer coisa
Eu não consigo me encontrar

Diga, por favor
Que sem ela, eu fiquei perdido
Diga sem medo
Que ela foi meu querer mais sofrido

Diga que sem ela
Eu fui chover e não tinha água
Eu fui viver e não tinha vida
Eu me olhei e não era nada

Diga, quando a vires
Que em mim, a falta dela persiste
Diga que ela volte
Diga que sem ela, eu não vivo

Diga que eu quero ver o seu sorriso
Que a quero entrando pela minha porta
Diga que a perdôo
Nada do que passou importa

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Ele, que nada tinha pra dar


Ela amava a arte

O povo de marte

E a parte que lhe sobrou

Ele não amava nada, só a ela


Nada ele tinha pra dar

Então deu seu coração

Ela não precisava receber

Mas, delicada, estendeu a mão

segunda-feira, 21 de março de 2011

O que eu (não) sou

Eu sou uma máquina de matar amores
Mentiria se dissesse que ninguém no mundo me amou
Mas o amor que muitos me tiveram
Com o tempo, em mágoa se tornou

Eu sou o fracasso em forma de gente
De tudo tive e tudo perdi de repente
Eu sou o sucesso de outrora
Em bar de subúrbio, a tocar na vitrola

Eu sou o sonho que ninguém sonhou
A vitória que ninguém alcançou
Eu sou a metade
Que ninguém encontrou

segunda-feira, 14 de março de 2011

Tudo que derrete

Sou sua entre taças, bocas e farpas
Sou sua em pelo, nuca e beijo
Sou sua entre trovões e desespero
Sou sua em canções, em versos e medos
Sou sua em presídios
Em paixões
De gelo

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Hoje eu não morro mais

Logo que acordei
Senti uma dor no peito
Já anoiteceu
E a dor ainda dói

Não sei o que sucedeu...
Dentro de mim
Um coração bate
Mas não é o meu

Preciso me desfazer
Desse mal que destrói
Preciso expulsar
Essa dor que me corrói

Hoje eu não morro mais
Mas se eu, por ventura morrer
Tanto faz

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Um doce



Hoje o céu está feliz
Da alegria, eles chamaram a imperatriz
Hoje no céu, tem festa
Com sabor de fruta e aroma de anis

Hoje o céu tem gosto doce
Como olho de sogra caramelado
Lá em cima, estão todos bem
Mas aqui, de saudade, se sofre um bocado

Ah, se todo mundo, como Arlinda, vivesse
O mundo não seria esse caos que a gente vive
Ah, se todo mundo, como Arlinda, fosse
Como o céu, a vida aqui também seria um doce

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Chove em Recife



Chove em Recife
E os pingos escorrendo pela janela parecem lágrimas ao meu olhar
Hoje, a noite me pareceu mais escura do que as outras
Há uma queda d'água entre teu corpo e o meu
Chove em Recife
E a rua da Aurora já está toda alagada
Chove nessa cidade
E daquele ardor, já não sobra nada.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Quando ela ri


Quando ela ri
Eu não sei se é pra mim
Eu não sei se eu fiz alguma coisa
Que a fez agir assim

Quando ela ri
Eu não sei se é verdade
Ou se ela ri pra todo mundo
Como ela ri pra mim

Quando ela ri, eu não sei
Se eu quero que ela suma ou se a quero pra mim
Quando ela ri eu não sei se eu sou eu
Ou se alguma coisa se apossou de mim

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Uma cama para três

Ele queria uma cama para três
Assim seria mais feliz
Duas pessoas é muito pouco
Quando se quer conquistar o mundo

Ele queria uma cama para três
Nela falariam todas as línguas
Amariam em sueco
Indo ao auge em francês

Ele queria uma cama para três
Teria amor pra todo mundo
Falaria um a um
De cada vez

Ele queria uma cama
Que desse várias pessoas
Que coubesse Recife inteiro
E uma parte de Alagoas

Ele queria, na verdade
Um amor sem moralidade
Não iria ter saudade
Porque na realidade, seriam um só

Ele queria uma bandeja
Com três xícaras
Um pouquinho de café
E açúcar na medida

Ele colocará um anúncio no jornal
Vai dizer que será um caso sem igual
Um dia ele consegue
Ele já sabe que não é normal