sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Uma homenagem à vida, falando na morte.

Se eu morresse, quem lavaria a blusa que eu deixei de molho?
Poxa. E aquele tênis novo que eu nem usei?
Quem escreveria os filmes que estão na minha cabeça?
E os poemas que não fiz?
Será que sou boa o suficiente?
Será que minha fé é grande o bastante?
E aquele livro que está na minha estante há um ano e eu ainda não li?
Cara, tem aquele exemplar do meu livro preferido de Rubem Fonseca, que é emprestei e não me lembro a quem. Nunca vão me devolver?
E aquela planilha de Excel que deixei aberta e inacabada no computador do trabalho?
Alguém vai cancelar meu cartão e minhas milhas, vão pra onde? Porra. Até uma empada eu coloco no cartão pra ganhar milhas
Será que alguém iria querer minhas máquinas velhas?
Ou ler as cartas de segredos trocados com minha prima na adolescência?
E o livrinho da primeira eucaristia que eu guardei por tantos anos? Iria pro lixo?
Quem iria dizer o que é lixo e o que é lembrança? Quem poderia distinguir isso?
Poxa vida...
Eu ainda nem conheci a Espanha
Nem Minas Gerais
Ainda nem tirei uma foto com aquela cantora de forró que eu gosto.
E num show de Chico, que eu nunca fui?
Será que eu demonstrei o meu afeto o suficiente?
Será que vou mesmo encontrar as pessoas que eu tanto amo e que se foram, como todo mundo me disse no dia que elas morreram?
Tem tanta coisa que não fiz mesmo podendo ter feito
Tanta coisa que fiz, podendo não ter feito
Eu ainda não fiz uma viagem num trailler
Eu ainda nem casei
Será que a pessoa com quem eu vou casar um dia, sabe que só pode ser com ela?
Eu tenho um bocado de sonhos e uma vontade imensa de viver
Quero ir na formatura de Duda
Ver Marina crescer
E ir na excursão que minha mãe quer ir comigo e lá agradecê-la por tudo
Eu quero mais abraços
Eu quero mais tempo com os sobrinhos que quase não vejo
Eu quero mais bolas de sorvete de jaca
Eu quero mais aniversários com meus amigos, mesmo que a gente não lembre do que aconteceu de meia-noite em diante
Eu quero ir a Maceió mais vezes
E sempre ter lembranças tão boas, que me façam chorar
Nunca deixar que as memórias me deixem
Não me deixar abater
Se me abalar, reeguer
E seguir
Ir
Somente ir.

domingo, 26 de junho de 2016

Tenho saudades

É, vô... Faz quase um mês desde que você se foi e tá tudo bem menos colorido sem você. É difícil pensar que você não está mais do outro lado da linha, nem do outro lado da estrada. Eu pegava o carro, dirigia quatro horas e quando atravessava o portão do Morada das Árvores, eu era só alegria. A minha infância fez morada naquele condomínio e você e vovó Nufa, construíram um castelo no meu coração. É triste demais lembrar que mesmo que eu chegue lá agora, abra a porta do 102 e corra pro teu quarto, eu não vá te ver. É triste ver a casa vazia, a estante sem livros, o altar sem os santos, o bar sem os vinhos e o mundo sem você. Sabe aquele porta retratos que te dei no dia dos avôs há uns 3 anos atrás? Eu peguei da sua estante e o trouxe pra casa. Agora ele fica na minha mesinha de cabeceira e toda noite, antes de dormir, eu dou um beijo de "boa noite" na nosso foto. Eu sei que você já não precisa do meu "boa noite". Na verdade, quem precisa sou eu. Às vezes, eu choro no chuveiro pra minha mãe não ver e não ficar mais triste ainda. Às vezes eu não choro. Às vezes eu me lembro de alguma coisa e abro um sorriso enorme. Eu estou com seus escritos, vô e sempre que pego algum deles pra ler, meu coração se enche de orgulho de você. Você fez esse mundo caótico ser muito mais bonito. Um beijo na testa. Tenho saudades. Te amo. Rafa.

sábado, 28 de maio de 2016

Ele é

Ele nunca falava sobre a morte, porque o que lhe interessava era a vida. Ele era atleta, teve um jornal, foi prefeito, conheceu a forma mais pura do amor, foi pai e foi avô. Ele abria a porta do carro, era gentil, o homem mais gentil que eu conheci. Ele comprava flores e lia poesia. Ele escrevia suas memórias em um caderno à próprio punho, relembrando suas estripulias, sua carreira política, a minha avó, a quem tantou amou e sua vida bem vivida, o que sempre lhe trazia lágrimas aos olhos. De saudade e felicidade, é claro. Ele era forte e saúdavel. Aos 96, nunca vi tão saudável. Ele brindava a vida em pequenas doses de scott com gelo ou de um tinto de qualquer tipo. Ele brindava a vida o tempo todo. Ele gostava dela e ela o abençoou profundamente. Ele me ensinou tanto sem sequer perceber, foi meu meu ídolo e eu sua fã devota e fiel. Ele era pura inspiração. Depois dos 90, ele aprendeu a mexer no computador, comeu sushi e leu o livro "Como conquistar uma mulher". Ele era fogo. Ele foi tão amado, meu Deus. Tão amado. Ele tinha fé em Deus, rezava antes de dormir e me escrevia bilhetes lindos. Na última vez que o vi, dei um beijo em sua testa e disse que o amava. Eu nunca perdi uma chance de dizer isso à ele. Nenhuma. Ele era o cliente mais amado na fila do supermercado e o maior apostador da Mega-Sena. Ele não gostava de ficar em casa. Ele gostava de rua, de gente, de amor, de vida. Ele era tão sábio e tão humano. Ele era demais. Na verdade, ele não era. Ele É. É e continuará sendo. E eu? Eu vou chorar um bocado, vou guardar cada memória e lembrar de cada abraço. Eu vou amar como ele sempre amou, respeitar o próximo como ele me ensinou. Eu vou continuar me inspirando nele todos os dias em que eu viver. Eu espero ser amiga da vida como ele foi e ver o mundo com a beleza que ele viu, sempre que abria aqueles lindos olhos azuis, que me olhavam e sorriam.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Sofrimento

Escrevi seu nome no ar com um incenso. Antes de terminar, seu nome foi embora com o vento. Em minha vida, tu és o tempo que me prega peças. A lembrança do meu sustento.  Gritei por ti em pensamentos, implorei você de volta e não ouvistes meus lamentos. Quis sentir de novo o teu alento, mas nada restou: só esse veneno, que me mata lento.

Eu também queria

Um dia ele me disse que me queria. Que o que ele sentia, por nenhum outro alguém em sua vida sentiria. Depois me confessou que o amor que guardava em seu peito era por mim e que ninguém teria dele, tanto respeito. Ele me disse que queria comigo passar a vida. Que eu seria para sempre a sua querida. Ele me disse tudo que dentro dele existia. Que pena que o tempo passou e eu esqueci de dizer que eu também queria.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Branca
















Branca como a neve
Como a linha da mulher rendeira
Branca como um lírio
Rápida nuvem passageira

Cristalina água de rio
Véu da noiva mais bela
Sorvete de côco
Barriga de andorinha

Roupa de lavadeira
Branquinha, Branquinha
Dorme no céu
Nossa grande guerreira

domingo, 16 de março de 2014

As coisas pelas quais eu torço


Eu torço para que os sorrisos sejam mais largos e as gargalhadas mais altas. Eu torço pelos que levantam cedo e pelos que trabalham até tarde. Eu torço pelos que tem calos nas mãos e suor nas costas. Eu torço pelos que lutam, pelos que choram, pelos que se abalam, pelos que caem e pelos que levantam depois da queda. Eu torço para que haja mais beijos nas novelas, e nos cafés, e nas praças, e nas ruas. Eu torço para que haja mais beijos. Eu torço pelas segundas chances, pelos casamentos saturados pela vida. Eu torço para que se encontre o amor guardado no fundo de uma valise de viagem. Eu torço para que as pessoas se perdoem mais e guardem menos mágoas. Eu torço para que as pessoas se redimam, se desculpem, se refaçam. Eu torço para que se encontrem mais cartas de amor dentro de livros velhos ou amassadas dentro de uma carteira usada. Eu torço para que não exista orgulho gay, nem orgulho hétero. Eu torço para que as pessoas se orgulhem de ser quem são. Eu torço pelos que fazem e torço mais ainda pelos que não sabem o que fazer. Eu torço para que as pessoas se encontrem. Eu torço para que as pessoas encontrem pessoas que a façam felizes. Eu torço para que as pessoas acreditem mais em Deus. Eu torço para que existam mais pessoas que acreditem que a borboleta que pousou em seu ombro é aquela pessoa querida que já se foi. Eu torço para que haja mais respeito entre os casais, entre as torcidas, entre os amigos, entre vocês. Eu torço para que não existam doentes sem cuidado, nem filhos sem carinho, nem choro sem abraço. Eu torço para que algum dia, William Bonner nos diga que não existe mais fome no mundo. Eu torço para que mais cartazes de filmes mereçam ser emoldurados, mais livros mereçam ser lidos e mais músicas mereçam ser ouvidas. Eu torço para que as pessoas se comovam mais, sejam mais caridosas, mais humanas e mais capazes de se colocar no lugar do outro. Eu torço para que mais animais sejam adotados. Eu torço para que a menina tímida não gagueje na entrevista de emprego. Eu torço para que não existam mulheres violentadas e se forem, eu torço para que o arrependimento de quem tortura seja amargo e tenha gosto de sangue. Eu torço para que existam mais “amigas da vez”, até porque elas são as únicas que permanecem bonitas até o final da festa. Eu torço pelas surpresas, pelos convites, pelo anel de noivado, pelo reencontro com a delicadeza esquecida na festa de 15 anos. Eu torço pelas declarações de amor, nem que seja por WhatsApp. Eu torço para que as viagens sejam mais baratas e que as pessoas enfim possam voar.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Nasceu Davi
















Todos chegam correndo
Nariz na janela de vidro
Sorriso no canto da boca
E gritam: - aquele é Davi

Nasceu Davi
E em cada rosto que passo
Pelo corredor lotado
O amor sorri, sorri

Nasceu Davi
Que nem é rei, mas já reina
Que nem governa, mas já manda
Nasceu Davi, que mal nasceu e já encanta

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Enfim o amor voltou
















E o amor enfim voltou
Como a névoa que embaraça a vista
Como a fumaça que provém do fogo
Ele apenas veio

E o amor voltou, enfim
As borboletas voaram
As andorinhas cantaram
A poesia brotou de onde não tinha nem capim

A poesia não é descartável, porém
Mas é fina e clara
Há os que olham e não vêem
Há os que vêem com desdém

Há quem se planeja com ela
Há quem não saiba que tem
Há quem saiba e não ligue
Há os que ligam também

domingo, 17 de junho de 2012

Só em pensar em ficar sem você



















é como se tirassem as palavras de um livro
o sorriso de um palhaço
a tinta de um pintor

é como se tirassem as rimas de um poeta
os sonhos de um artista
o perdão dos que tem rancor

é como se tirassem das coisas mais belas, a flor
o azul do céu
a luz, a vida, o calor

é como se tirassem meu pedaço mais belo
minha artéria mais pulsante
minha vida, meu amor

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Devagar

Devagar
Esquece o tempo que corre
Esquece o que falta
O pior já passou

Devagar
A viagem era longa
Mas o pior ficou atrás
Já andou

Devagar
Que o santo é de barro
O caminho é de pedra
E o sapato apertou

Devagar, meu irmão
Eu te ajudo a subir
Você não vai mais cair
Eu te digo por onde ir

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Só tu

E foi quando eu achava
Que não acharia ninguém
Que você veio

E foi quando eu não cria
Em mais nada
Que o céu se fez azul

E foi quando não vinha sequer uma alma
Eu olhava nas ruas e não via nada
Subindo a ladeira, estavas tu

E você vinha tão bela
Eu te olhava e dizia:
- Será que é ela?

Você subiu a ladeira, chegou e ficou bem perto
Te dei um beijo no rosto
Virei uma chama inteira

Depois disso, qualquer mal que em minh’alma estava, sumiu
Só tu fizeste festa
Só tu reuniste tudo que de melhor em mim existe ou existiu

Só tu tens o convite do baile
Só tu o cheiro da flor
Só tu em meu peito, bate
Só tu tens meu bem, meu amor